sábado, 22 de agosto de 2009

PARA REFLETIR...


O Bloco Crocodilo é uma das mais tradicionais e famosas agremiações carnavalescas de Salvador. Desde cedo tem a fama de ser ousado, pois foi o primeiro bloco tradicional que teve a coragem de descer para o circuito Barra-Ondina quando este ainda era considerado uma aposta irrelevante e meramente alternativa. O resultado não foi outro: Os crocodilanos foram atrás do trio elétrico sendo os primeiros a “marcar território” no novo circuito. A ousadia do bloco continuou até tomar forma de um “teatro andante” no comando de sua rainha Daniela Mercury e, por fim, causar uma grande e desnecessária polêmica ao se declarar não um bloco GLS, mas um bloco onde todos são bem-vindos se estiverem no intuito de se divertir de forma pacífica e alegre.
Paralelo a isto, temos o bloco Os Mascarados, que há alguns anos atrás era visto como um bloco GLS, até pela questão da fantasia, manifestação bastante apreciada pelo público em questão, mas que acerca de uns quatro ou cinco anos, a sua condutora Margareth Menezes declarou que não era propriamente um espaço para gays, lésbicas e simpatizantes. Resultado: De bloco de corda, passou a trio independente. Logo em seguida, Margareth reformulou sua fala, dizendo que o bloco está aberto a todos os públicos. E realmente está, pois as câmeras não mentem.
Comecei a minha dissertação explanando um pouco da história destes dois grandes nomes do Carnaval de Salvador para agora tratar de uma questão que nem deveria ser discutida, podendo ser passada despercebida como os assaltos, mortes e altos índices de prostituição e pedofilia da festa. A questão aqui a ser tratada é como as visões retrógradas da população podem estereotipar as coisas. A concepção a ser definida aqui é que, tanto o Bloco Crocodilo quanto Os Mascarados são blocos como quaisquer outros. A diferença está na forma de como eles são conduzidos. Não é a questão de gays terem simpatia por Daniela e Margareth apenas. A grande explicação é que elas foram as únicas artistas a declarar publicamente a respeito do assunto. Você não ouve Bell, Durval, Ivete, Claudia falando a respeito do público e dos interesses dos mesmos em seus shows e blocos. Como um fã destes artistas, sendo gay, vai se portar diante de um evento público, sendo que o homossexualismo é visto pela sociedade como um conceito errado? Os gays estão em todos os blocos, isto é fato. Mas a maneira como os artistas olham para esta parcela que é estereotipada e condenada pela sociedade é outra história. Ninguém quer comandar um bloco com homens e mulheres se beijando. Aposto que Daniela e Margareth devem também ter seus incômodos, mas, além de cantar, elas devem também refletir sobre a diversidade que há entre seus fãs, e como artistas, elas devem acolher, senão, quem faria isso? Pra que a arte se ela não está ao alcance de todos? O resultado é que nos bloco Crocodilos e Mascarados, já sabendo a posição e a filosofia da entidade em que ele está, o público GLS se sente mais à vontade não só para ouvir as músicas, cantar e pular, mas também para paquerar, curtir e namorar como TODOS têm direito, pois TODOS são pessoas e ponto final. Em outros blocos, este público está lá também, às vezes em número muito maior, disfarçando, tentando curtir o carnaval da mesma forma que a sociedade aponta como “pessoas normais”. Infelizmente, a realidade é esta. Em um mundo onde em shoppings e restaurantes dois homens ou duas mulheres, principalmente adolescentes que andam de mãos dadas são convidados a “se portarem” diante das “pessoas normais”, manifestar este carinho junto a mais de dez mil pessoas dentro da corda ou até milhões fora da corda, pode significar um sério risco de vida.
O respeito deve estar à frente de qualquer negócio, para o público GLS e o público hétero não sofra preconceitos pela rua, só por causa do abada que veste. É, acima de tudo, uma questão de consciência e responsabilidade social. Que deve fluir do artista para os fãs.

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